Minha mãe me convidou para acompanhá-la até uma costureira próxima da nossa casa, pois ela queria fazer bainhas em algumas calças. Entramos no prédio comercial e nos deparamos com uma fila de espera... O porteiro estava pedindo a identidade de cada pessoa que entrava, depois ele anotava o número num bloco, ligava para a loja e perguntava se a pessoa estava autorizada a entrar.
Depois de alguns minutos de espera, tomamos o elevador até o 1° andar. Chegamos à porta da costureira e tocamos a campainha. A porta de madeira se abriu e do outro lado da porta de vidro surgiu uma mulher de 58 anos, com aparência de 47, que media, no máximo, 1,47m, com cabelo curto, louro com mecheas castanhas e olhar acinzentado de catarata escondido atrás de óculos retangulares rosa transparente. Ela abriu a porta e esticou a perna esquerda para a frente, pisando e disse:
- Não pisa!
Minha mãe e eu nos entre olhamos. As duas com cara de "não entendi".
- Não pisa aqui, tá quebrado.
Tivemos que saltar sobre o azulejo indicado para entrar na oficina. Depois da pequena brincadeira da amarelinha, minha mãe disse a palavra fatal:
- Oi, amiga! (pronto, fudeu!) Eu vim aqui para você fazer bainha nessas minhas calças, eu sou baixinha e não gosto de dobrar.
- Ai, eu sei como é. Mas você é linda! Que cabelo lindo, esse rosto bonito... (não entendi nada)
- Ah, obrigada!
- Vamos lá para "a cozinha" porque eu estava trabalhando num outro pedido.
Fomos para a segunda sala e elas começaram a confabular sobre como seria a bainha em cada peça. Não sei bem como aconteceu, só sei que de repente, elas estavam falando de tudo, menos das bainhas. Uma falava de filhos, outra falava de signos e eu feito um espectador de partida de tenis. O negócio começou a ficar sério quando o assunto foi "doença"...
Costureira: - Eu estou com suspeita de tuberculose, mas estou muito tranquila!
Minha mãe: - Minha filha já teve...
Costureira: - E como foi?
Eu: Fui no médico, ele diagnosticou, não acreditaram, passei por vários exames, confirmou o diagnóstico, tomei remédio durante 8 meses e me curei.
Minha mãe: - Credo, Dú, isso jeito de falar...
Costureira: - Qual é o seu nome? (nessa hora eu quis rir)
Minha mãe: - Eloá.
Costureira: - Nossa! Você sabe o que significa?
Minha mãe: - Sei... Do Hebraico: À Deus.
Costureira: - Tem certeza?
Minha mãe: - Tenho...
Costureira: - Você tem boa memória?
Minha mãe: - Sim... (Claro que não!)
Costureira: - Você sabe quanto pesa um cérebro humano? (nesse momento eu tive que fingir que me engasguei)
- Minha mãe: - Uns 5Kg (foi dá corda para maluco...)
- Costureira: - Não, pesa no máximo 1Kg e 400g. Mas o cérebro de um elefante pode chegar a 5 Kg. Eles tem uma memória tão fascinante, que eles lembram onde tem água no deserto (não seria instinto?). Sabe como eles sabem se estão perto da água? Eles escutam o barulho de outras manadas, eles ouvem o barulho do chão! Você sabe qual é o feminino de elefante?
Minha mãe: - Elefanta? (eu quis enfiar a cabeça dela na roda da máquina de costura!)
Eu: - Elefoa!
Costureira: - Eu acho que é Eloá! (...)
Eu: - Por quê?
Ela olhou nos meus olhos com uma expressão mista de empolgação e vazio e respondeu: - Não faço ideia!
Sério! Eu achei que também fosse começar a ver um coelho branco de terno e relógio, uma Rainha de Copas Louca e uma lagarta azul maconheira... Pois era fato de que eu estava frente-a-frente com o Chapeleiro Maluco!

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