Há alguns anos eu tive uma conversa muito poética com meu tio avô Walter Menezes. Nós estávamos na varanda da casa dele, em Valença - RJ, e aquele dia era muito importante para ele, pois tinha acabado de publicar um livro de poesia e ingressara na Academia de Letras de Valença. E, como a família é muito grande e espalhada, poucos foram prestigiá-lo, isso despertou nele a frase que nunca esquecerei: "A família é como um sistema solar. Tem os planetas mais quentes, que são os mais próximos do sol, e os planetas mais frios, que são os mais distantes"... Essas palavras soaram como filosofia de vida para mim.E eu passei a entendê-la alguns anos mais tarde, quando a outra parte da minha família se tornou um sistema solar frio após o falecimento da minha avó, há treze anos. Os planetas estavam causando atritos entre si devido a diferença significativa de gravidade e atmosfera e com esse afastamento eles jamais se alinharam novamente, sempre tinha um ou outro que se mantinha fora de eixo. Há, mais ou menos, três anos o Sol foi perdendo energia, adoeceu e começou a esfriar, mas somente dois planetas ficaram mais próximos para zelar e, depois de muitas queimaduras, devido à aproximação, apenas um ficou até o fim, fazendo o possível para aquecer o Sol e, nas poucas vezes que pediu ajuda aos outros planetas, foi difícil lidar com a mágoa e rancor de seis atmosferas distintas.
Há dois dias meu avô está internado, pois aos 88 anos, depois de enfrentar as reações de suas escolhas, ele teve enfisema pulmonar e adquiriu pneumonia nos dois pulmões. E, só assim, os planetas se aproximaram, para lamentar. Tantas oportunidades desperdiçadas, tantas festas e comemorações individuais, tantas brigas e rancor guardados e que na hora do Adeus é "esquecida".
Irônico o ser humano que só sabe lamentar e que não sabe respeitar as diferenças, tampouco conviver com elas. Irônico o ser humano que inveja a felicidade do outro, ou que se sente infeliz com a felicidade do próximo. Irônico observar todo esse movimento de resgate num momento em que a perda é irreversível. E sabe o que é pior? Tentar encontrar um culpado para uma situação natural da vida, a hora de morrer de velhice. A, tão difícil, hora do "Adeus".
Nenhum comentário:
Postar um comentário