quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Na hora do "Adeus"

Há alguns anos eu tive uma conversa muito poética com meu tio avô Walter Menezes. Nós estávamos na varanda da casa dele, em Valença - RJ, e aquele dia era muito importante para ele, pois tinha acabado de publicar um livro de poesia e ingressara na Academia de Letras de Valença. E, como a família é muito grande e espalhada, poucos foram prestigiá-lo, isso despertou nele a frase que nunca esquecerei: "A família é como um sistema solar. Tem os planetas mais quentes, que são os mais próximos do sol, e os planetas mais frios, que são os mais distantes"... Essas palavras soaram como filosofia de vida para mim.

E eu passei a entendê-la alguns anos mais tarde, quando a outra parte da minha família se tornou um sistema solar frio após o falecimento da minha avó, há treze anos. Os planetas estavam causando atritos entre si devido a diferença significativa de gravidade e atmosfera e com esse afastamento eles jamais se alinharam novamente, sempre tinha um ou outro que se mantinha fora de eixo. Há, mais ou menos, três anos o Sol foi perdendo energia, adoeceu e começou a esfriar, mas somente dois planetas ficaram mais próximos para zelar e, depois de muitas queimaduras, devido à aproximação, apenas um ficou até o fim, fazendo o possível para aquecer o Sol e, nas poucas vezes que pediu ajuda aos outros planetas, foi difícil lidar com a mágoa e rancor de seis atmosferas distintas.

Há dois dias meu avô está internado, pois aos 88 anos, depois de enfrentar as reações de suas escolhas, ele teve enfisema pulmonar e adquiriu pneumonia nos dois pulmões. E, só assim, os planetas se aproximaram, para lamentar. Tantas oportunidades desperdiçadas, tantas festas e comemorações individuais, tantas brigas e rancor guardados e que na hora do Adeus é "esquecida".
Irônico o ser humano que só sabe lamentar e que não sabe respeitar as diferenças, tampouco conviver com elas. Irônico o ser humano que inveja a felicidade do outro, ou que se sente infeliz com a felicidade do próximo. Irônico observar todo esse movimento de resgate num momento em que a perda é irreversível. E sabe o que é pior? Tentar encontrar um culpado para uma situação natural da vida, a hora de morrer de velhice. A, tão difícil, hora do "Adeus".

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