domingo, 26 de setembro de 2010

Isso estava no Script?

André parou para abastecer o táxi num posto na esquina da Rua Paulo Silva Araújo com a Rua Adriano, por volta de 20:25hs. Um rapaz moreno e alto fez sinal logo depois que André entrou no carro. Se aproximou da janela e perguntou se ele o levaria para São Cristóvão. Com a confirmação, o rapaz entrou... Alguns metros à frente, quando se sentiu mais à vontade, o passageiro tirou a pistola da cintura e disse:

- Tava doido pra sair daqui, Cara. Eu acabei de roubar uma moto, mas aquela merda disparou o alarme, Maluco. Aquela parada de car sistem. Fiquei nervosão, num sabia o que fazer, vazei de lá.

- Pô, eu estou levando você numa boa, você não vai me assaltar não, né?

- Fica na paz aí, Chefe, que eu não assalto trabalhador não. Mas, vô te mandá a real, se eu vê um carro de policia vô mandá bala pra todo lado, tá ligado?

- Pô, fica calmo, não faz isso não, ninguém vai desconfiar de você. Fica na boa.

André respirou fundo e tentou se manter calmo e sereno. Quando chegaram na Marechal Rondon, o assaltante reiniciou a conversa:

- Aí, tu tá com celular aí? Preciso fazê uma ligação, tu me empresta rapidinho?

André nada respondeu. Tirou o celular do bolso e passou para o passageiro.

- Fala aí, Doido! Como tá o movimento no morro? Vai dá pra entrá pela frente? Porra, Cara! Valeu então, vou entrar pelo outro lado!

Desligou a ligação e devolveu o aparelho para o taxista. Já estavam entrando no Morro da  Mangueira quando o assaltante voltou a falar:

- Aí, meu filho tá com pobrema de saúde, tu tem 50 Reais aí? Comecei meu turno agora e, te falei, né, num consegui nada.

Encostou a pistola no braço do taxista como quem dá um tapinha no ombro do amigo e continuou.

- Mas, tu tem , né não? Eu sei que vocês ganha diária.

André deu o dinheiro.

- Pô, vô precisá do celular, Cara. Me empresta aí de novo.

André emprestou o celular novamente. Mais adiante, ele parou o táxi num ponto de ônibus para o passageiro descer do carro.

- Aí, tu liga pro teu celular, umas onze e meia, meia-noite que é pra nós combiná onde que eu te entrego de volta o celular e o dinheiro, valeu?

O assaltante saltou do carro e foi embora... De volta ao asfalto, André encontrou uma viatura da polícia e encostou. Contou toda a história para os policiais e eles responderam:

- Se eu fosse o senhor, eu subia o morro e falava para o dono que esse cara fez essa merda.

- Mas, eu estou te contando o que aconteceu. O senhor não pode me ajudar?

- Meu amigo, o que você quer que eu faça?! Lamento muito, mas eu não posso fazer nada por você...

Para não acabar a noite pior do que começou, André voltou para o táxi e foi embora.

Espera aí! Vocês entenderam o mesmo que eu? O assaltante pegou emprestado e garantiu que devolveria o celular e o dinheiro. Já os policiais (que são pagos para prender bandido) não puderam ajudar...
Acho que eu entendi! Como foi um empréstimo, não tinha mesmo o porquê dos policiais se meterem... É, faz sentido. Afinal, foi um acordo entre conhecidos, hoje em dia se faz amizade muito fácil e muito rápido. Vai ver o André até trocou msn e Orkut com o cara, se é que o assaltante não tem twetter!
Gente, pelo amor a si próprio, isso está na hora de acabar! O que você vai fazer por você, por sua família, cidade e país? A eleiçoes estão chegando...

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Em clima de Primavera

O abacaxi é uma bromélia...
E a gente come!
Tão amarelinho,
Tão docinho...
Quem diria?
E não tem gosto de terra.
Ah, essas bromélias...
E hão de dizer
Que planta não se come
Nem flor!
Mal se sabe que o caju
É uma flor modificada.
Fiquei sabendo...
Graças à ciência avançada.
Quem diria
Que como planta e flor
Na salada?!

domingo, 19 de setembro de 2010

Que cor é essa?

Fui ao estofador com a minha mãe para ela escolher o tecido para as cadeiras da mesa de jantar. Estávamos nos divertindo com tanta variedade, até que uma mulher entra na loja e começa a discutir com o vendedor.

- Olha só, eu estive aqui na semana passada e encomendei almofadas marrom, mas me entregaram nessa cor.

Ela tirou as almofadas de dentro da sacola e a cor era marrom café. Eu pensei: vai ver não era essa tonalidade que ela queria, talvez ela procurasse um marrom chocolate... Com muita calma o estofador respondeu.
- Desculpe a falha. Com quem a senhora falou?

- Com um menino que trabalha aqui. E eu ainda deixei um pedaço do tecido que escolhi com ele!

- Tudo bem, eu concerto o erro. Inclusive, eu posso até fazer um desconto para a senhora. Nesse cesto tem sobras de tecido que geralmente vão para o lixo, eu posso refazer o estofamento das almofadas pela metade do preço.

- Eu não quero nada disso! Eu quero que as almofadas fiquem na cor que eu escolhi!

- Tudo bem, então. Enquanto eu atendo essa moça, a senhora pode ir para o balcão de tecidos e trazer o marrom que escolheu semana passada.

Passaram-se, mais ou menos, 15 minutos e ela voltou.

-Aqui! É esse o tecido que eu escolhi!

O estofador olhou para o tecido, olhou para as almofadas e constatou o mesmo que eu. Suas orelhas ficaram púrpuras, quando ele se esforçou para perguntar:

- A senhora quer me dizer que cor é essa?

- Marrom! O mesmo que eu escolhi na semana passada!

- E também o mesmo marrom (café) que eu estofei as almofadas!

- Ah, mas não é mesmo!

Eu sei que não devia, mas foi impossível não rir. Era uma situação ridícula! E aquela mulher parecia estar com tanta sede de briga, que não quis sequer admitir que ela estava enganada... Era só se desculpar e rir daquilo tudo. Mas, ela fez cara de zangada, guardou as almofadas na sacola e foi embora jurando que nunca mais voltaria lá.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Na hora do "Adeus"

Há alguns anos eu tive uma conversa muito poética com meu tio avô Walter Menezes. Nós estávamos na varanda da casa dele, em Valença - RJ, e aquele dia era muito importante para ele, pois tinha acabado de publicar um livro de poesia e ingressara na Academia de Letras de Valença. E, como a família é muito grande e espalhada, poucos foram prestigiá-lo, isso despertou nele a frase que nunca esquecerei: "A família é como um sistema solar. Tem os planetas mais quentes, que são os mais próximos do sol, e os planetas mais frios, que são os mais distantes"... Essas palavras soaram como filosofia de vida para mim.

E eu passei a entendê-la alguns anos mais tarde, quando a outra parte da minha família se tornou um sistema solar frio após o falecimento da minha avó, há treze anos. Os planetas estavam causando atritos entre si devido a diferença significativa de gravidade e atmosfera e com esse afastamento eles jamais se alinharam novamente, sempre tinha um ou outro que se mantinha fora de eixo. Há, mais ou menos, três anos o Sol foi perdendo energia, adoeceu e começou a esfriar, mas somente dois planetas ficaram mais próximos para zelar e, depois de muitas queimaduras, devido à aproximação, apenas um ficou até o fim, fazendo o possível para aquecer o Sol e, nas poucas vezes que pediu ajuda aos outros planetas, foi difícil lidar com a mágoa e rancor de seis atmosferas distintas.

Há dois dias meu avô está internado, pois aos 88 anos, depois de enfrentar as reações de suas escolhas, ele teve enfisema pulmonar e adquiriu pneumonia nos dois pulmões. E, só assim, os planetas se aproximaram, para lamentar. Tantas oportunidades desperdiçadas, tantas festas e comemorações individuais, tantas brigas e rancor guardados e que na hora do Adeus é "esquecida".
Irônico o ser humano que só sabe lamentar e que não sabe respeitar as diferenças, tampouco conviver com elas. Irônico o ser humano que inveja a felicidade do outro, ou que se sente infeliz com a felicidade do próximo. Irônico observar todo esse movimento de resgate num momento em que a perda é irreversível. E sabe o que é pior? Tentar encontrar um culpado para uma situação natural da vida, a hora de morrer de velhice. A, tão difícil, hora do "Adeus".

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Mais um dia

Perdido num deserto de horas agudas,
a cavalgar num camelo sedento só vejo miragens ao vento
que sopra quente e árido castigando a mente com maus pensamentos.
Na poeira de areia as dúvidas se acumulam em dunas
e a viagem prossegue sem linha no horizonte,
de tantos montes.
No lombo do camelo tem leite, mel e centeio,
mas não me lembro como tirar proveito,
então continuo em meio.
Lento.
Fraco.
Farto.
Às cegas sob esse sol que não se deixa abater
açoitando com fortes ondas de calor
o corpo escondido com grosso tecido.
Interessante caminhar sem a certeza de ir na direção certa.
E se o sol daqui não nasceu do leste?
Vou seguindo, mais um dia
O camelo e eu...