segunda-feira, 21 de março de 2011

Desapropriação

Não quero mais a angústia
de uma dor insuportável.
Não quero mais o medo
de uma noite obscura rodeada por fantasmas.
Não quero mais o gosto amargo
de um uísque ardente que desce sufocando a garganta
afundando o vazio no estômago.
Preciso vomitar as palavras presas
Preciso ofender, gritar
Preciso sair antes que seja mais tarde.
Não quero ser prisioneira de tudo aquilo que não vejo
Tampouco ser marionete para fazer rir aquele que me devora.
Quero fechar essa janela
e deixar preso o bicho-papão que sob minha cama mora.
Não quero mais a ansiedade pela cura,
Quero gozá-la sem culpa.
Já não faço mais questão de seguir o mesmo caminho,
Quero, apenas, fechar esse buraco cheio de vazio.
Sem expectativas, sem planos para o futuro.
Quero encerrar esse passado
e me desfazer de todas as alianças, juras e amores desajuizados
que me prendem em tristeza a esse fardo.
Vou desapropriar-me dos monstros
Chaga de tentar entender.
Não vão mais roubar-me os sonhos
A minha escolha sempre foi viver.

sábado, 12 de março de 2011

Bolso furado

Tudo escapa,
por mais guardado que pareça estar.
Mesmo que não esteja à mostra,
lá no fundo o buraco espera.
Mas ninguém percebe,
afinal, o que foi guardado ali permanecerá.
Aí, alguém avisa
"o bolso está furado, cuidado!"
Mas não há problema,
afinal, o que foi guardado ali ainda está.
Mais uma vez o aviso é dado
"não esquece isso no bolso, menino, vai acabar perdendo!"
Para se assegurar, uma apalpada para conferir
"ah, ainda está aqui"
No passar das horas outras coisas tornam-se, naturalmente,
mais importantes
e o pequeno papel dobrado no bolso vai sendo esquecido.
Corre-corre daqui, senta-e-levanta de lá
e tudo segue sua rotina.
Ao chegar em casa, põe-se a roupa suja para lavar
checa um bolso
"caramba, uma nota de R$2,00!"
checa outro bolso
"ih é, tenho que costurar esse furo"
E lá vai a roupa para dentro da máquina...
Alguns dias depois, alguém pergunta
"onde está o papel que te dei?"
...
"Perdi"


sexta-feira, 11 de março de 2011

Hein?

Natália marcou nutricionista para o dia seguinte, em Copacabana, às 10 horas da manhã. Calculou a distancia entre o Méier e o consultório, colocou o relógio para despertar às 7:30. Achou melhor deixar a roupa separada para não gastar muito tempo se arrumando, assim evitaria atrasos. Foi até o guarda-roupas e pensou: "É melhor por uma roupa prática." Então escolheu uma calça jeans, a blusa de sapinhos que sua mãe bordou e o bom e velho tênis.
Na manhã seguinte, tudo correu como planejado, ela levantou na hora, se arrumou, tomou o copo de leite e saiu. Chegou ao consultório pouco antes da hora marcada. Conversou com a nutricionista e, ao fim da consulta, pegou a receita médica e a indicação da farmácia onde conseguiria o medicamento por um bom preço. Então ela seguiu pelas ruas de Copacabana admirando aquele bairro tão peculiar. Chegou à farmácia de manipulação e entregou o pedido. A atendente garantiu a ela que o remédio ficaria pronto em duas horas. Sem pressa, Natália resolveu esperar...
Caminhou até o calçadão, sentou num quiosque e pediu uma Coca-cola. Embora o tempo estivesse nublado, a praia de Copacabana sempre encanta os olhos, coração e alma. Natália acendeu um cigarro e começou a pensar na vida quando um gringo se aproximou e perguntou:
- Oi, posso me sentar?

- Sim, pode.

- Meu nome é Hugh, sou australiano e vim passar férias no Brasil.

- Prazer em conhecê-lo, Hugh.

- Você está trabalhando?

Nathália apagou o cigarro no tampo da mesa e se levantou.

Então quer dizer, que se você para para fumar um cigarro no calçadão de Copacabana, isso significa que você é uma garota de programa?! A verdade é que muito gringo vem para o Rio de Janeiro em busca de turismo sexual, então ele seleciona a "vitima" a esmo, porque, infelizmente, até hoje o Brasil é visto como o país do futebol e do samba. Mas, a questão é que ele nem se deu o trabalho de procurar decentemente por uma profissional do sexo (puta), ele simplesmente teve o raciocínio lógico (preconceituoso) de que as mulheres de Copacabana são prostitutas. Ele podia, pelo menos, ter reparado na blusa infantil que Nathália estava usando... Fica a lição: Só abra a boca quando tiver certeza.

Essa história foi enviada por Natália Penedo. Quer contar sua história também? Envie-um e-mail para dm.nasentrelinhasdocotidiano@gmail.com