segunda-feira, 21 de junho de 2010

O que muitos querem e poucos podem

Estava chegando na Praça XV, às dez da noite, nesse sábado quando vi a porta da Igreja de Nossa Senhora do Carmo iluminada, com um toldo na porta, adornado com pilastras e cortinas brancas. A curiosidade percorreu todo o meu cérebro e fez cócegas no meu estômago, então estacionei e fui lá conferir.
Antes de sair de casa achei que estava produzida demais para ir ao aniversário da minha prima no "Dito e Feito", mas quando cheguei na porta da igreja me senti uma favelada. TODOS os homens estavam de terno, não tinha um que estivesse apenas de calça e blusa social. As mulheres estavam deslumbrantes com vestidos bonitos, e mesmo os mais simples ultrapassavam o meu. Fiquei ali parada, absorvendo aquele glamour todo, enquanto todos me analisavam da cabeça aos pés...
Esperei os noivos saírem ao som do coral e serem recepcionados com a chuva de arroz, imaginando quantas bocas deixaram de comer para que este capricho fosse realizado. E é nesses momentos que você compreende a sutil diferença entre ricos e aqueles que não fazem parte da sociedade, nesse caso os pobres, mas foi uma felicidade só! Haviam três daminhas usando vestidos iguais com adornos e detalhes iguais. Não se viu uma carregando a bandeira do Brasil em homenagem à Copa do Mundo, ou então abraçando um bichinho de pelúcia, ao invés disso, as três levavam pequenos buquês de mini rosas cor-de-rosa. Os padrinhos vestiam ternos iguais com uma orquídea amarela na lapela do lado esquerdo e as madrinhas estavam todas com vestidos longos - Confesso que estranhei que não fossem iguais também.
A igreja esvaziou e eu entrei. Nunca havia estado ali antes e foi como voltar no tempo. O templo foi erguido em 1761 e as obras duraram 15 anos. Os detalhes no interior com talhas douradas é proveniente do rococó e foram produzidos em 1785. Impossível não imaginar a ostentação da Igreja Católica naquela época, principalmente depois de saber que o local é conhecido como a "Antiga Sé", pois foi Sede Episcopal da Diocese até 1976, época em que foi concluída a nova Catedral Metropolitana do Rio de Janeiro.
Pois bem, tinha flor para todos os lados, até o altar estava repleto de flores naturais, eram lírios, hortências, rosas e lisianthus, todas de mesma cor: branca. Fiquei paralisada por alguns instantes, admirando toda aquela beleza até ser sugada de volta para a realidade pelos organizadores que começaram a desmontar tudo, me enxotando de cima do tapete vermelho e desfazendo os arranjos.
- O que vocês vão fazer com essas flores?
- A maioria vai para o lixo.
- Posso pegar?
- Fica à vontade...
Foi o que fiz! Seria pecado deixar tanta flor bonita murchar. Até os rapazes do coral estavam colhendo flores para as esposas e mães. Saí da igreja com enorme buquê nas mãos, seduzida pelo perfume dos lírios.
Como se não bastasse... Voltando ao carro para deixar as flores, não pude crer no que meus olhos viam. A festa estava acontecendo no Paço Imperial, sim, dentro do Paço Imperial! Recepcionando os convidados havia um rapaz - de terno - tocando Violoncelo. Mais uma vez a curiosidade fez cócegas no meu estômago. Aproximei-me da janela lateral, me posicionando atrás de um coche do museu e reparei no pequeno espaço que me foi concedido observar: Os garçons serviam apenas as bebidas e recolhiam os talheres. No centro daquele salão tinha uma mesa aparentemente de frios, onde os convidados se serviam, no centro da mesa um arranjo gigante com lírios de todas as cores, é provável que outras flores estivessem dando corpo ao arranjo, mas os lírios eram o destaque. Na parede esquerda havia um arranjo de lírios amarelos enfeitando a mesa de caldos e pastas... Véus, velas, cristais, tudo que um sonho nos permite imaginar.
De repente, gelei em meio ao furor de alegria dos convidados. Fiquei imaginando quantas pessoa desejam um casamento assim e o máximo que podem é morar juntos, ou como no caso dos meus pais que só puderam ter a cerimonia e nada mais. Ali eu entendi porquê minha mãe sonha e faz tanta questão de fazer uma festa de casamento. Mas, também fui pessimista em calcular quanto tempo aquele casamento duraria... Será que serão capazes de se respeitar? Será que a ostentação subirá à cabeça? Será que o importante era a festa e não a união? Vamos torcer para que sejam felizes, para que saibam dividir momentos difíceis e adoráveis, que saibam ser honestos e respeitosos.

Passado o momento de reflexão, aqui fica a melhor frase da noite: "Só você para me fazer invadir o casamento dos outros e aida voltar cheio de flores para casa".

sexta-feira, 18 de junho de 2010

E agora, José?

Morreu, aos 87 anos, o escritor português José Saramago. Consagrado pela Academia Brasileira de Letras e com uma de suas obras representada no cinema por Fernando Meirelles: "Ensaio sobre a cegueira".


Saramago tinha o dom raro de observar e perceber a sociedade "cega" que construímos. Se me for concedida a honra de pensar, creio que na trama de "Ensaio sobre a cegueira", ele era a esposa do médico. Pois era o único que conseguia ver, e agindo como nós nos direcionava, através de suas obras, aos lugares onde queríamos chegar, e somente aqueles que sentiam paz e confiança em suas palavras, se deixavam guiar.

De todas as declarações que li, a de Meirelles foi a mais próxima da qual o próprio Saramago diria, se pudesse: "(...) definitivamente o mundo ficou ainda mais burro e ainda mais cego hoje".

quinta-feira, 17 de junho de 2010

O Cidadão do trem

Vinha sentada, num cantinho, só obsrvando o que acontecia à minha volta. O trem parou na Central e um vendedor de balas entrou no vagão:
- Desculpe incomodar o silêncio da sua viagem, mas é que eu tenho aqui uma promoção que vocês, senhores passageiros, não encontram aí fora, não! Na minha mão, os senhores levam uma barrinha de chocolate batom por apenas Um Real. Nas lojas aí fora, os senhores não vão encontrar por menos de Dois Real cada uma"...
Depois do tão conhecido discurso, algumas pessoas levantaram a mão e o vendedor começou a realizar seu oficio. Já chegando no último cliente um cidadão chamou a atenção do vendedor:
- Ô, isso aqui tá ruim! Volta aqui!
- Senhor, isso está na validade.
- Mas, está ruim! Eu não vou comer isso, eu quero outro!
O vendedor, um tanto preocupado analizou o produto. Com uma expressão de decepção ele deu uma outra embalagem lacrada ao cidadão indignado com a falta de cuidado dele. O trem parou na estação seguinte e - pude sentir pena daquele rapaz, que muitas vezes acreditamos que só vende bala no trem porque não quis estudar... vai saber - o desanimo ainda percorria o rosto do vendedor quando ele ficou na plataforma.
Voltei minha atenção ao cidadão que reclamou a ignorância do "mendigo" e vi: Na hora em que ele ia morder a suculenta barra de chocolate, o pedaço caiu no chão. Ele, muito esperto, recolheu o pedaço. Olhou para um lado, olhou para o outro, soprou e... COMEU!
Como assim??? Depois de ter humilhado o vendedor, depois de ter reclamado do gosto do produto, o imbecil comeu um pedaço que caiu no chão!!! De que serviu a reclamação? Teria sido mais esperto humilhar o fabricante, que mandaria em três dias uma cesta de produtos para a casa dele!

Esse é apenas mais um bom exemplo de que é mais fácil humilhar os que consideramos menores do que enfrentar alguém que consideramos maior do que nós mesmos.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

A Maré das Vertigens

Acreditava-se que ser gente grande era o máximo... Por quê?
Aos sete as meninas brincam de boneca, os meninos de policia e ladrão na casa da avó aos domingos, mas é comum pensar em "ter um carro igual ao do meu pai" ou "usar roupas bonitas iguais as da minha mãe".
Aos treze os hormônios eufóricos perturbam as aulas de biologia que falavam sobre o sistema reprodutor do ser humano, mas é comum ter recaídas e ainda brincar de bonecas (escondida, lógico) ou ter um volante de carro encontrado num ferro velho e dirigir pela casa toda. Mas, tem a vertigem de cantar as meninas nas matinês, de dar o primeiro beijo, ou um beijo memorável.
Aos quinze surge uma curiosidade vertiginosa sobre a primeira relação sexual e também a vertigem dos pais ficarem sabendo.
Aos dezesseis acredita-se que certos vícios como bebidas e fumo são sinônimos de maturidade, despertando uma vertigem de experimentá-los.
Aos dezessete as cobranças começam a ficar sérias, como que profissão escolher e para que universidade prestar vestibular.
Aos dezoito, na maioria das vezes, começam na faculdade. Alguns pensam "Mó legal!" Dois anos depois começa a fase de buscar estágio e, é lógico, que nunca é bom (salvos os nerds e indicados). Com isso, vem o primeiro salário e a vertigem de como gastar; O primeiro esporro e a vertigem da dúvida se a carta de demissão estará sobre a mesa no dia seguinte. Mais dois ou três anos depois vem a apresentação da monografia e lá está o professor mais mala do curso inteiro e na testa dele é possível ler: "Te acho burro" então lá vem a vertigem do ZERO.
Algum tempo depois uns são contratados e outros sofrem desemprego. Os contratados sentem a vertigem de perder o emprego e os desempregados sentem a vertigem de nunca conseguir um emprego na área que levou quatros anos ou mais estudando.
Alguns sentem a vertigem de arranjar um namorado(a), outros de casar. Tem a vertigem de, finalmente, comprar o primeiro carro, ou dar à luz o primeiro filho. A vertigem de comprar uma casa próxima à família ou bem longe. A vertigem de aceitar um emprego que pague menos, mas que é perfeito. A vertigem de aceitar cada fase da vida como ela é, mesmo que não seja boa e que as esperanças de melhorar sejam quase nulas...
Toda escolha vem acompanhada de vertigem, cabe a cada um desfrutar desse frio na barriga sem se deixar consumir pela insegurança e desistência, claro que sempre medindo as consequencias que cada escolha oferece.